6 temas · 60 questões comentadas com referências científicas aplicadas à odontologia
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Este material sintetiza os principais conceitos de psicologia relacional aplicados à prática odontológica, com base nos referenciais teóricos de Goleman, Gardner, Townsend, Stefanelli e nas diretrizes da Política Nacional de Humanização (PNH/MS). A competência relacional é tão determinante para o sucesso clínico quanto o domínio técnico.
O ser humano é essencialmente um ser social — distingue-se dos demais animais pela alta hierarquização de suas estruturas biopsicossociais e pela capacidade de criar meios artificiais (cultura, sociedade) para a satisfação de suas necessidades vitais (FRITZEN, 2000). A personalidade humana é uma estrutura dinâmica, nunca estática, em permanente busca de ser.
O ser humano apresenta quatro dimensões fundamentais que devem ser consideradas integralmente na prática em saúde:
A saúde é o equilíbrio dessas três grandes esferas: saúde física (corpo em pleno funcionamento), saúde mental (capacidade de adaptação às situações da vida — sem definição oficial da OMS por ter influência cultural) e saúde social (habilidade de interagir e prosperar em ambientes sociais). O profissional de saúde contemporâneo sustenta seu trabalho nessa visão biopsicossocial integral (ENGEL, 1977).
Cada indivíduo é um ponto de uma rede de relações de "mão dupla": influencia e é influenciado. A cultura — conjunto de práticas, costumes, crenças e tradições — é o resultado da produção coletiva e deve ser compreendida pelo cirurgião-dentista para uma abordagem genuinamente humanizada.
O relacionamento intrapessoal (prefixo intra = dentro de) é o autoconhecimento — a capacidade de o indivíduo conhecer a si mesmo, compreender seus desejos e medos, controlar suas emoções e administrar seus sentimentos. Permite construir um modelo de si mesmo para tomadas de decisão eficazes (GOLEMAN, 2001).
Segundo Goleman (2001), o autoconhecimento tem três componentes:
Howard Gardner, em sua Teoria das Múltiplas Inteligências, identificou 8 formas de inteligência. A inteligência intrapessoal — considerada por muitos a mais importante — propicia o acesso às emoções e desejos para reorientar ações e atingir metas. A inteligência corporal-cinestésica (coordenação motora com perícia e destreza) tem relevância direta na odontologia.
Daniel Goleman identificou as 5 áreas da Inteligência Emocional essenciais ao profissional de saúde:
| Área | Definição |
|---|---|
| Autopercepção | Perceber a si mesmo perante situações pessoais e profissionais |
| Autocontrole | Modular reações; não ser reativo — raciocinar antes de agir |
| Automotivação | Encorajar-se proativamente para atingir objetivos |
| Empatia | Compreender situações pela perspectiva da outra pessoa |
| Aptidão social | Relacionar-se com os demais em conformidade com os ambientes |
O relacionamento interpessoal (prefixo inter = entre) é a capacidade de se relacionar com outras pessoas, aguçando habilidades de observação e percepção. Seus seis pontos fundamentais são: cordialidade, assertividade, empatia, autoconhecimento, ética e gestão das emoções.
O relacionamento terapêutico é uma experiência na qual a interação entre profissional e cliente favorece o atendimento de suas necessidades e contribui para a promoção ou restabelecimento da saúde (STEFANELLI, 2012). Exige que o profissional reconheça o paciente como um ser único, com esperanças, medos, alegrias e tristezas. São duas grandes responsabilidades do profissional: o relacionamento individualizado e o estabelecimento de um ambiente terapêutico para todos.
Townsend (2011) classifica as ações do relacionamento terapêutico em quatro fases:
| Fase | Características principais |
|---|---|
| Pré-interação | Explorar os próprios sentimentos e limitações; obter dados sobre o paciente; preparar-se para o primeiro encontro |
| Orientação | Contato direto; estabelecer confiança; explorar pensamentos e expectativas; definir objetivos; firmar contrato terapêutico |
| Trabalho | Investigar estressores; promover introvisão; superar resistências; implementar ações; avaliar continuamente |
| Término/Conclusão | Preparar o cliente para o futuro; rever o aprendizado. Preparo inicia na fase de Orientação |
As cinco condições essenciais ao relacionamento terapêutico:
Os impasses terapêuticos são obstáculos que emergem na relação profissional-paciente e precisam ser identificados e manejados pelo cirurgião-dentista:
| Impasse | Definição | Exemplo clínico |
|---|---|---|
| Resistência | Tentativa do cliente de não perceber os aspectos que geram ansiedade; relutância em mudar mesmo reconhecendo a necessidade | Paciente que sabe que precisa melhorar a higiene oral, mas nunca segue as orientações |
| Transferência | Atitude inconsciente em que o cliente apresenta emoções ao dentista associadas a alguém importante de sua vida (por semelhança física, comportamental ou relacional) | Paciente que sente medo intenso do dentista porque ele lembra o pai severo da infância |
| Contratransferência | Resposta emocional do profissional pelas características do cliente — a transferência do profissional para o paciente | Dentista que sente irritação excessiva com paciente que lembra um familiar com quem tem conflito |
| Violação de limites | Estabelecimento de relação pessoal, social ou econômica com o cliente — transgressão dos limites terapêuticos | Profissional que passa a frequentar socialmente a casa do paciente e concede descontos sem justificativa técnica |
O autoconhecimento é a principal ferramenta para o manejo dos impasses. Na fase de Trabalho do relacionamento terapêutico, discutir e superar os comportamentos de resistência é uma ação explicitamente prevista (TOWNSEND, 2011). Para a resistência, a Entrevista Motivacional (MILLER; ROLLNICK, 2013) é uma abordagem cientificamente validada e com aplicação direta na odontologia preventiva.
A Humanização da Assistência significa atenção centrada no cliente — abordagem individualizada com ênfase nas necessidades de cada indivíduo. A Política Nacional de Humanização (PNH) do Ministério da Saúde (2010) visa colocar em prática os princípios do SUS, mudando a forma de gerir e de cuidar e estimulando a comunicação entre gestores, trabalhadores e usuários.
As cinco características do processo de humanização (PNH, 2010): Mudar (modelos de atenção e gestão), Compartilhar (trabalho coletivo), Colaborar (corresponsabilidade e autonomia), Incluir (vínculos solidários) e Interagir (mapeamento das demandas sociais e subjetivas).
O relacionamento terapêutico ocorre quando o profissional: busca conhecer o cliente com constante diálogo; cultiva a confiança pelo respeito e empatia; e proporciona relacionamento que favorece a diminuição da ansiedade. As abordagens que dificultam o relacionamento terapêutico são:
Estudos brasileiros (PINTO, 2008; GOMES et al., 2012) demonstram que a qualidade do relacionamento é um dos principais determinantes da satisfação do paciente e da adesão ao tratamento odontológico — tão importante quanto a competência técnica.
Desenvolvida pelos psicólogos Joseph Luft e Harrington Ingham (UCLA, 1955) — "Johari" é a junção dos seus nomes —, é um modelo gráfico que representa como a percepção de si mesmo e dos outros se organiza em quatro quadrantes, fundamental para o desenvolvimento do autoconhecimento e da comunicação interpessoal.
| Conhecido pelo EU | Não conhecido pelo EU | |
|---|---|---|
| Conhecido pelos outros | EU ABERTO | EU CEGO |
| Não conhecido pelos outros | EU SECRETO | EU DESCONHECIDO |
O feedback é a ferramenta central da Janela de Johari: avaliação, comentário que potencializa habilidades e promove o autoconhecimento. Ao receber feedback, o Eu Cego diminui e o Eu Aberto se expande. Para isso, é fundamental ouvir o feedback de coração e mente abertos. Na prática odontológica, criar cultura de feedback entre equipe e pacientes é estratégia de melhoria contínua da qualidade assistencial.
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